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CACIQUE PEQUENA CONTA COMO TUDO COMEÇOU...

    Muito antes de sermos reconhecidos pela FUNAI, na década de 70, nós já éramos conhecidos como índios pelas pessoas da Baxinha (Pindoretama), Iguape, Aquiraz e Cascavel. Eles nos chamávamos de “Cabeludos”.

    Antônio Gomes, conhecido como “São Cristão” da Igreja de Pindoretama, já conhecia os índios cabeludos da Encantada, antes da FUNAI.

    No ano de 1905, existia o tuchau Chico Pichinga.

    Na década de 70, o Pedro Pipivary esteve na Lagoa da Encantada, do Poço Azul ao Saco do Marisco.

    Na década de 80, pela primeira vez, vieram uns alunos da Universidade Federal fazer um estudo na aldeia Lagoa Encantada, a pedido do Cardeal-Arcebispo Dom Aluísio Lorscheider.

    Esses alunos encontraram a tradição e a cultura indígena e comprovaram que os cabeludos eram índios.

    Minha mãe e meu pai contavam muitas histórias, que na Guerra do Paraguai eles pegavam os índios na mata para levar para a guerra. Aqueles que eles não levavam, eles amarravam e deixavam presos lá na praia, onde hoje é conhecida a praia do Presídio.

    Nós índios vivíamos todos escondidos para ninguém saber de nós, pra nós nos livrarmos do massacre que nossos antepassados sofreram.

    O tempo foi passando e os índios foram procurando se organizar. Foi quando chegou na Encantada um homem chamado Cordeiro e procurou o Cacique Adorico. Nessa época, a aldeia era composta por 17 famílias e todo mundo se reuniu.

    O Cordeiro pediu para nós nos organizar e fazer uma associação, pois o Carlos Augusto (prefeito de Aquiraz na época) queria vender nossas terras para a construção de um resort.

    Foi aí que nós nos organizamos e fizemos uma associação, chamada Associação de Trairussu, Lagoa Encantada e Tapuio, com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores e a Pastoral Indigenista (CDPDH).

    Começamos a lutar para o reconhecimento, porque antes a gente tinha medo do massacre, mas sempre assumimos que somos índios.

    Iniciamos o trabalho e a luta indígena para defender a mãe terra e a mãe lagoa.

    A história com a Ypióca começou em 1986, quando a lagoa perdeu a respiração verdejante, as plantas e os peixes morreram.

    Desde 1984 até hoje, nós viemos lutando pelos nossos direitos.

    Nos anos 90, o Cacique Adorico faleceu e, em 1995, a Cacique Pequena assumiu a liderança da etnia Jenipapo-Kanindé. A liderança da Cacique foi muito contestada pelas demais etnias, que não queriam reconhecer que uma mulher assumisse o papel de Cacique. Mesmo assim, o povo Jenipapo-Kanindé reafirmou a decisão e manteve a Pequena como Cacique.

    Em 1997, a FUNAI fez um estudo na Lagoa da Encantada, e os antropólogos fizeram o reconhecimento da terra e dos índios Jenipao-Kanindé. Nessa equipe, estavam Fátima Campelo Brito (antropóloga), Joana (historiadora), Soraia (socióloga), Marcelo (do INCRA), Zé Wellington (IDASSU) e Renato (engenheiro).
    
    Em 2004, o governo federal publicou o relatório final do reconhecimento da terra dos Jenipapo-Kanindé1.

    O nome Jenipapo-Kanindé é porque na aldeia tem muito jenipapeiro brabo e tinha uma igrejinha que as pessoas chamavam de canindezinho, sendo muitos índios devotos de S. Francisco, daí vem o nome Jenipapo-Kanindé.

    Antigamente, os índios dessa região sentavam numa esteira de cipó e comiam muita caça da natureza, como buzu, siri, caranguejo, camarão, preá, aratu, peba, camaleão, tijuaçu, com pirão, macaxeira, tapioca e beiju de coco. Eles comiam numa cuia, numa quenga ou numa casca de melancia, com uma folha de cajueiro. Não existia prato, talher, mesa, cadeira, televisão, som e geladeira. Éramos um povo que vivia da natureza, com costumes da natureza. Não tinha contato com ninguém. O contato com os brancos era muito pouco.

    As crianças de 1 a 10 anos andavam todos nus e com os pés descalços. Era uma cultura. Os homens e as mulheres não cortavam o cabelo, por isso não se misturavam com os outros povos, porque eles eram diferentes.

    Hoje, é totalmente diferente. O índio vive vestido, com roupa no corpo, cabelo cortado, sapato no pé e relógio no braço, mas em nenhum momento nós deixamos de ser índios em nenhum momento perdemos a nossa cultura e nossa tradição, como a fogueira com a dança do toré e a doutrina do toré (cânticos).

    Jamais ninguém pode tirar a nossa origem de índio. Nascemos e morremos sendo esse povo índio Jenipapo-Kanindé.

    Não haverá ninguém para fazer nós deixarmos de ser esse povo. Ninguém vai fazer os índios Jenipapo-Kanindé da aldeia Lagoa Encantada calar a boca, porque nós não calamos nossa boca. Somos índios, somos guerreiros, somos da pátria, somos guerreiros da pátria.
Muito antes de existir Aquiraz, nós já existíamos, por essa razão não existe ninguém da terra para calar nossa boca, porque somos um povo diferente.

    Há muito tempo a Ypióca tira água da nossa lagoa para “aguar” a cana e fazer a própria cachaça Ypióca.

    Hoje, pedirmos respeito da nação, da sociedade, para saber valorizar os povos indígenas que foram os primeiros habitantes desse país. Somos os verdadeiros povos dessa terra, por essa razão exigimos os direitos dessa gente tão inocente que habita esse país de tanta desconsideração.

    Lutamos por direitos iguais, sejam brancos, pretos ou índios. Lutamos por um direito que venha a reconhecer quem somos e valorizar esse povo diferente.
Que eles também sejam um povo que tenha dignidade e que ninguém desconheça nós índios e nem olhem para nós com mau visão (preconceito).

Autor: Luís Paulo Vieira da Silva
Índio Jenipapo-Kanindé
Correspondente do Boletim Indígena
Aquiraz – Lagoa da Encantada - 2007

1 Diário Oficial da União nº 159, de 18 de agosto de 2004.

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