
Jubileu – 25 anos do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza
Nasceu do fundamento mesmo da própria fé cristã, o apreço e os esforços pela promoção e defesa dos direitos humanos.
Já proclamava a Igreja a si mesma e ao mundo no Concílio Vaticano II, nos meados do século XX, no programático documento Gaudium et Spes: “A igualdade fundamental entre todos os homens deve ser cada vez mais reconhecida, uma vez que, dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos têm a mesma natureza e origem; e, remidos por Cristo, todos têm a mesma vocação e destino divinos. Sem dúvida, os homens não são todos iguais quanto à capacidade física e forças intelectuais e morais, variadas e diferentes em cada um. Mas deve superar-se e eliminar-se, como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de discriminação, quanto aos direitos fundamentais da pessoa, por razão do sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião. É realmente de lamentar que esses direitos fundamentais da pessoa ainda não sejam respeitados em toda a parte. Por exemplo, quando se nega à mulher o poder escolher livremente o esposo ou o estado de vida ou conseguir uma educação e cultura semelhantes às do homem.Além disso, embora entre os homens haja justas diferenças, a igual dignidade pessoal postula, no entanto, que se chegue a condições de vida mais humanas e justas. Com efeito, as excessivas desigualdades econômicas e sociais entre os membros e povos da única família humana provocam o escândalo e são obstáculo à justiça social, à eqüidade, à dignidade da pessoa humana e, finalmente, à paz social e internacional.Procurem as instituições humanas, privadas ou públicas, servir à dignidade e ao fim do homem, combatendo ao mesmo tempo ativamente contra qualquer forma de sujeição política ou social e salvaguardando, sob qualquer regime político, os direitos humanos fundamentais. Mais ainda, é necessário que tais instituições se adaptem progressivamente às realidades espirituais, que são as mais elevadas de todas; embora por vezes se requeira um tempo razoavelmente longo para chegar a esse desejado fim. (GS 29)”
Deste impulso eclesial e das urgências dos tempos nasceram muitas ações e entre elas o CDPDH da Arquidiocese de Fortaleza, em maio de 1982, por decisão pastoral da Arquidiocese e pelo apoio decisivo de Dom Aloísio Lorscheider, Arcebispo Metropolitano de então. Nesta época de efervescência das entidades de Direitos Humanos, nasceu o Movimento Nacional de Direitos Humanos e a ele se filiou o CDPDH, organizando-se na temática da Terra e Moradia, no atendimento dos mais necessitados, com atenção especial aos moradores de áreas de risco. Acrescentou-se posteriormente a chamada Temática Indígena para apoiar e acompanhar a articulação dos povos indígenas do Ceará.
Estamos comemorando os 25 anos de uma instituição que, dentro da Arquidiocese de Fortaleza, surgiu para ser a própria atividade organizada na promoção e defesa dos direitos humanos, principalmente lá onde eles são mais esquecidos ou feridos.
Têm sido anos de muita dedicação e benefícios para tantos! Tem sido verdadeira expressão da “caridade organizada”, que é a Igreja, na promoção e defesa da vida humana em todas as suas dimensões. Assim continua atual e muito necessária a presença do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza, frente aos novos e violentos ataques desferidos contra as pessoas humanas, “imagem e semelhança de Deus” desde sua criação e “filhos e filhas no Filho” na obra da redenção.
Com atualidade a Igreja se volta para os direitos humanos. Temos a seguinte afirmação da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe em Aparecida, em mais deste ano 2007: “A Igreja Católica na América Latina e no Caribe, apesar das deficiências e ambigüidades de alguns de seus membros, tem dado testemunho de Cristo, anunciado o Evangelho e oferecido seu serviço de caridade particularmente aos mais pobres, no esforço de promover sua dignidade e também no empenho de promoção humana nos campos da saúde, economia solidária, educação, trabalho, acesso à terra, cultura, habitação e assistência, entre outros. Com sua voz, unida às outras instituições nacionais e mundiais, tem ajudado a dar orientações prudentes e a promover a justiça, os direitos humanos e a reconciliação dos povos. Isto tem permitido que a Igreja seja reconhecida socialmente em muitas ocasiões como instância de confiança e credibilidade. Seu empenho a favor dos mais pobres e sua luta pela dignidade de cada ser humano têm ocasionado, em muitos casos, a perseguição e também a morte de alguns de seus membros, os quais consideramos testemunhas da fé. Queremos recordar o testemunho valente de nossos santos e santas e quem, mesmo sem ter sido canonizados, viveram com radicalidade o Evangelho e ofereceram sua vida por Cristo, pela Igreja e pelo Povo. (D.A. 98)”
Temos já um bom caminho percorrido, que muito motiva nossa ação de graças. Temos um belo trabalho já realizado, como verdadeiro sal da terra e luz do mundo, no conjunto dos esforços da sociedade por mais solidariedade e fraternidade. Temos exigências gritantes que interpelam ações responsáveis, para dar respostas do amor cristão aos feridos na dignidade e excluídos da vida de nosso hoje. Temos ainda um futuro pela frente, pois o espírito vivido no CDPDH deve ainda mais penetrar todo o corpo eclesial de nossa Igreja Arquidiocesana. A defesa da vida e da pessoa humana faz-se ainda hoje, 25 anos depois, mais urgente e necessária.
Jubileu significa festa de gratidão, alegria pelo bem feito. Jubileu conclama a novos tempos e novas energias, novo início com alma e entusiasmo. Jubileu é expressão da esperança que não decepciona na construção de novos céus e nova terra. Jubileu é tempo de novas semeaduras e envolvimentos maiores pelo bem das pessoas e da vida.
E nossa gratidão por todos os que se doaram por esta causa. E nossos votos para que, em nossa Arquidiocese, muitas comunidades e pessoas se envolvam nesta luta pela defesa e promoção dos direitos humanos: “no homem vivo se exprime a glória de Deus”.
+ José Antonio Aparecido Tosi Marques
Arcebispo Metropolitano de Fortaleza |